• Talita Moschini

Afinal, o que é Psicologia Perinatal?



Um campo de atuação da psicologia pouco conhecido, porém, de extrema importância, é a Psicologia Perinatal. Uma área que se dedica a trabalhar com os fenômenos psicológicos relacionados ao que está em torno do nascimento, ou seja, planejamento familiar, gestação, parto e puerpério, períodos estes que fazem parte do ciclo gravídico-puerperal. O olhar da psicologia perinatal é voltado não só às mulheres que se tornam mães, como também aos homens e todas as pessoas que possam estar envolvidas no processo do ciclo gravídico-puerperal.


Os cuidados antes do nascimento do bebê

A função do psicólogo perinatal é a de abordar e tratar as questões psíquicas e emocionais que surgem nesse processo e que possam desencadear sofrimentos, conflitos ou adoecimentos psíquicos, sempre levando em consideração o fato de que todas as experiências vividas por cada um são únicas e, por isso, não podem ser generalizadas. O profissional da área trabalha sempre em busca de prevenção de doença e promoção de saúde emocional da família que está nascendo.


É importante sabermos que a gestação e todo o processo que a envolve é considerada uma fase de crise na vida de uma mulher. Crise pelo fato de ser uma fase que envolve inúmeras e significativas transformações e mudanças tanto físicas quanto emocionais e que, por isto, requer adaptações, aprendizados e reconstruções internas. Portanto, por conta de toda mudança e transformação que vive, a mulher fica mais vulnerável emocionalmente, o que pode deixá-la mais sensível e contribuir para que ela apresente sentimentos e comportamentos diferentes dos que tem normalmente. Sentimentos como preocupações e medos em relação à mudança que a chegada de um filho irá trazer vão surgir e, se forem aceitos e bem acolhidos, não gerarão grandes impactos.


Os cuidados após o nascimento do bebê

Tão importante quanto o cuidado da saúde emocional da gestante, é o cuidado da saúde da puérpera, mulher que acabou de dar a luz ao seu bebê. Os passos fundamentais para buscarmos saúde integral (física e emocional) da mãe e do bebê recém nascidos são: conhecer, entender e se preparar para o puerpério e os desafios o que o envolve.


Sob o ponto de vista médico, o puerpério é o período do pós parto que se inicia logo após a saída da placenta e que dura mais ou menos de 6 a 8 semanas, o que, tecnicamente é o tempo da recuperação fisiológica da mulher. Porém, do ponto de vista psicológico, podemos afirmar que o puerpério pode chegar a durar até 2 ou 3 anos, já que o levado em consideração é o tempo necessário para a mulher se reestruturar emocionalmente, o que será muito relativo e individual.


Assim como a gestação, o puerpério é um período normalmente marcado por uma intensa transformação no qual a mulher vivencia um paradoxo de emoções e sentimentos. Ao mesmo tempo que pode existir felicidade e realização pela chegada do bebê, pode haver também um certo desespero, um sentimento de medo, tristeza, uma sensação de perda das rédeas da própria vida. A mulher vivencia uma verdadeira sensação de se perder de si mesma. São os lutos que a mulher vive após a chegada do filho, o que é normal, afinal perdemos muitas coisas quando ganhamos o bebê e isso nos deixa absolutamente sensíveis, fragilizadas e vulneráveis emocionalmente.


A mulher pode viver nessa fase um encontro de questionamentos e emoções. As perguntas podem ser muitas. Nasce uma certa confusão entre “quem eu era” e “quem eu sou agora”, ou até em relação a “quem eu darei conta de ser”.


São muitos medos que acompanham a mulher, justamente porque é tudo muito novo e desconhecido. Por conta disso, podem surgir conflitos consigo mesma e sentimentos tidos como proibidos e, erroneamente, julgados por ela mesma como inadequados, o que a faz não externalizá-los.


Portanto, é fundamental saber que todo esse estado emocional é absolutamente normal e que os sentimentos podem e devem ser externalizados. Além de toda a alteração fisiológica e hormonal que ocorre nesse período, o próprio processo de transição e de transformação da mulher nessa fase nutre uma certa desorganização emocional que traz a necessidade de a mulher receber muito carinho, amparo e cuidado, tanto dela mesma quanto de quem a cerca. Um sentimento relatado com muita frequência pelas puérperas é o de solidão. Mesmo com a casa cheia, é possível a mulher se sentir sozinha, pouco amparada e não compreendida nessa fase.


É preciso saber sobre as alterações de humor e os adoecimentos psíquicos que podem se manifestar no puerpério, para que seja possível identificar e diferenciar o que está ou não dentro da normalidade.


O que é Baby Blues?

O mais comum a se manifestar é o Baby Blues, que pode também ser chamado de blues puerperal ou tristeza materna, e que não é uma doença, mas sim uma alteração de humor, a qual é justificada pela intensa alteração hormonal que a mulher vive após o parto somada aos desafios e transformações com as quais a mulher se depara quando já está com o bebê nos braços. Cerca de 60 a 85% das mulheres vivem essa alteração, que é transitória e passageira e dura em média de 15 a 20 dias. Normalmente os sintomas começam a surgir entre o 3º ao 5º dia após o parto. Os sintomas típicos são: labilidade emocional (oscilação de humor), crises de choro sem motivo aparente, aumento da irritabilidade, aumento da preocupação, principalmente em relação aos cuidados do bebê, pensamentos de que não dará conta ou de que nunca mais terá a vida de volta. É muito comum que o pico desses momentos de oscilação de humor seja ao final do dia, quando a mãe já está exausta depois de um dia intenso e de uma significativa privação de sono.


Vale considerar que esses sintomas não chegam a impedir que a mãe realize suas tarefas do dia a dia, ela fica apenas fragilizada, o que não tende a afetar o relacionamento dela com o bebê. Por conta disso, não requer uso de medicação, apenas observação, esclarecimento e muito cuidado e acolhimento, pois vai se resolver espontaneamente, com o passar dos dias.


Depressão Pós Parto

Já a Depressão Pós Parto é um quadro de adoecimento psíquico que requer mais cuidado e atenção. É um transtorno de humor - a manifestação do Transtorno Depressivo Maior durante o ciclo gravídico puerperal. Chega a acometer cerca de 10 a 25% das mulheres brasileiras e destas, cerca de 50% já apresentam sintomas durante a gestação, por isso o nome usado hoje é Depressão Perinatal. Diferente do que ocorre no baby blues, na depressão os sintomas persistem e podem se intensificar com o passar dos dias. Os sintomas mais comuns da depressão perinatal são: melancolia e tristeza intensa e constante, desmotivação profunda, ausência de forças para lidar com a rotina e falta de prazer e interesse para lidar e cuidar de si mesma e do bebê.


Além destes citados acima, existem outros sintomas que podem aparecer significativamente em um quadro de Depressão Perinatal, tais como: ansiedade excessiva, irritabilidade fora do comum, necessidade de se isolar, dificuldade de concentração e tomada de decisão, alteração significativa no sono e apetite (para mais ou para menos), forte sentimento de culpa, além de pensamentos relacionados à morte ou ideação suicida.


Diferenças entre os quadros de Depressão e Baby Blues

O que mais diferencia o quadro de depressão do quadro de baby blues, é a intensidade e frequência dos sintomas e o grau de prejuízo e impacto na vida da mulher. No caso da depressão, a mulher tende a ficar bem disfuncional no seu dia a dia, e vivencia prejuízos e sofrimento significativos em sua vida.


O diagnóstico da depressão é basicamente clínico e por isso, é extremamente importante observar os sintomas, sua intensidade e frequência. Muitas vezes esse deverá ser papel do parceiro ou de quem estiver convivendo com a puérpera. O tratamento envolve o uso de medicação prescrita por um profissional especialista e também psicoterapia.


Diante da constatação do quão complexas e significativas podem ser todas as transformações e mudanças que acontecem durante o ciclo gravídico-puerperal, é preciso considerar a grande importância da rede de apoio. Uma rede que deve ser formada por pessoas próximas e confiáveis, que terão o papel de oferecer ajuda e suporte no que for preciso, para que os dias desafiadores e cansativos desta fase sejam vividos de uma forma mais leve e tranquila. O nascimento de uma família pode e deve, sim, ser vivido de uma maneira descomplicada, com mais EMPATIA, AMOR e LEVEZA.



Talita Moschini - Psicóloga Perinatal e Obstétrica

Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, atua na clínica com foco em atendimentos à mulheres em processo para engravidar, gestantes, puérperas ou parceiros/ familiares.

Lev - Terapias Cognitivas e Neuropsicologia - (65) 3028-2663 ou (65) 98126-6464 (Whats)

Cuiabá – MT

Insta: @psi.talitamoschini

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